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Os Contos de Gael – Parte Quatro

São exatamente quatro horas da manhã e Gael se vê deitado, encarando o teto esbranquiçado de seu apartamento. Confortável em seu pijama, tudo que ele menos consegue é fechar seus olhos e encerrar uma boa parte do dia até seu despertar. Outra noite de insônia o assola como em muitas vezes em seu passado; ocorria sempre que se sentia agitado com sua vida. A única mudança, todavia, é que agora ele não se encontrava sozinho.

Virando-se com seu corpo para o lado, ocupou a visão com uma vista ainda não usual para si: uma figura pequena descansava tranquilamente à sua frente, de costas para ele. Seus braços esticados de forma preguiçosa, as pernas dobradas assimetricamente no colchão e a blusa erguida em sua barriga, indicando o sono profundo da garota. Ariah respirava de forma rítmica, onde inspirava e expirava lentamente em resposta ao sono. Aquilo encantava Gael, mesmo que sua mente ainda não se acostumasse com a presença da garota em seu apartamento. Ainda poderia ser chamado de “seu”, mesmo que compartilhassem o espaço como cônjuges?

Confuso e cansado, Gael se aproximou e a trouxe junto ao peito; a abraçou, com zelo e carinho, tomando muito cuidado para não acordá-la de seus sonhos. Seu cheiro adocicado inebriava sua mente e parecia assoprar todos os seus problemas para longe, mesmo que não conseguisse descansar. Sua mente inquieta, que tanto o atormentava com as dificuldades do casal, o sufocavam. Afinal, quem tem um relacionamento completamente perfeito não costuma existir fora da ficção, não?

Desde que estavam juntos, passaram por tanta coisa que seria digna de novela: brigas e discussões por envolvimento de terceiros, a dificuldade em lidar com os problemas da alma um do outro, os hábitos incomuns que se colidiam violentamente e causavam desconfortos um ao outro era só um terço do que enfrentaram. Se você vai entrar em um relacionamento, deve estar bem preparado para todos os tipos de situações desconfortáveis que possam aparecer, mesmo que não te proteja, por completo, do impacto do conflito. Não se é possível evitar, assim como o envolvimento de diferentes familiares também é. E Gael estava farto disso.

Gael estava cansado de tantos problemas aparecem tão rápido e demorarem a se dissipar. Por mais que a amava, lidar com todos os empecilhos o machucava. O desgastava, ainda mais que seu novo emprego. O fazia se sentir perdido, e se perguntar se sua vida ainda valia a pena. O amor nos faz ir até pontos extremos para alcançar a felicidade, mas o que é ela se não um ciclo? O problema só estava na duração desse ciclo: dias sem se falar podiam se tornar semanas, caso não fosse bem resolvido. Gael não queria isso; a apertou e enterrou seu rosto em suas costas. Segurança costuma ser a recompensa da confiança no outro, mas por que ele se encontrava tão inseguro e amedrontado de seu futuro?

Como se soubesse o que passasse em sua mente por todo esse tempo, Ariah despertou-se e virou de frente para ele. O rosto cansado, o olhar pesado e a mão trêmula e quente envolvia sua bochecha. Uma única pergunta escapou de seus lábios dormentes, ainda processando seu despertar lento:

-Você ainda me ama?

As palavras, soando como uma adaga de desespero no peito de Gael, o fizeram abraçá-la com força. A apertou firme, e respondeu o que sempre lhe dizia para acalentar seu coração dolorido:

-É claro que eu te amo, até mais que ao meu próprio eu. Era uma resposta extrema, vinda de uma alma tão torturada por emoções que chegou ao ponto da dormência. Não se orgulhava, mas se sentia feliz por ser assim. Feliz por amá-la tão fervorosamente. E felicidade… era a ausência da vida de Gael.

Um suspiro aliviado seguidos de baixos soluços o mostrou quem realmente estava sofrendo: ela. Ela estava aos prantos em seu peito. Ela quem estava tão fragilizada ao ponto de quebrar. Ela quem estava tentando tanto, por eles dois. Ela quem precisava de um descanso. Gael, com lágrimas quentes distorcendo sua visão, finalmente fechou seus olhos enquanto sentia o perfume de seus cabelos. Ele a amava, e faria de absolutamente tudo por ela. Ela também faria o mesmo por ele, entretanto, por estar inseguro até de si mesmo, ele duvidava até onde ela lutaria por ele. Não se orgulhava dessa dúvida, mas ela não se apagava; era como uma picada que não parasse de liberar um incômodo veneno. Ela sabia disso. Mesmo ao choro, Ariah sussurrava palavras de reafirmação; tão doces que trazia paz a alma destruída de Gael. Ele, sentindo sua ansiedade aumentar e a garganta apertar, caiu em um silencioso lamurio que seria ouvido apenas pela sua amada:

-Por quanto tempo teremos de aguentar?

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2 comentários em “Os Contos de Gael – Parte Quatro

  1. Que felicidade em poder ler seus texto!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada! ♡

      Curtido por 1 pessoa

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