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Os Contos de Gael – Parte Dois

Após a sua demissão, Gael se encontrava buscando trabalhos novamente. Não foi fácil; passaram-se semanas e ele ainda estava à procura; nenhuma das empresas em que havia aplicado lhe respondera e, para piorar, seu corpo havia decaído muito mais.

Sua saúde piorou; o clima inquieto da região em que morava derrotou sua imunidade – a mesma que lutava pelos dias chuvosos e ensolarados, rajadas de vento fortes e o maldito cheiro de bolor em jaquetas velhas. Foi uma batalha árdua; ao mesmo tempo que parecia estar bem, seu corpo dava pequenos picos de sintomas gripais, como a tosse incontrolável de anteontem.

Gael suspirou e viu o relógio em seu celular; nove e meia da manhã, dia chuvoso. A janela de seu apartamento estava coberta por apenas uma cortina, abrindo espaço para o cinza morto do céu clarear todo o ambiente. Seu nariz havia dado um bom dia deveras peculiar, mas esperado: estava congestionado, fazia-o lutar para respirar e ele era forçado a tossir no processo. Espirros se tornaram constantes e seu rosto inchou. É… uma ótima forma de começar seu dia. Gael sabia que deveria descansar hoje, mas algo o chateava.

Não, não era o simples fato da doença ter se agravado. Era pior; o que o afligia era a dor da alma, os sentimentos em um redemoinho que dilacerava o coração. O cataclismo se originava de um só lugar: a solidão. Se havia algo que a vida adulta o ensinou, às chibatadas, foi o abandono. Seus amigos e colegas? Todos possuíam sua própria vida e seus próprios problemas – mas Gael, pelo visto, não era um deles.

Durante os sete dias em que Gael adoecera, nenhum vizinho ou tão aclamados “amigos” vieram lhe ver. Pelo que ele sentia, era como se os expulsassem da sua vida como uma criança em conversa de adultos. Ele não tinha importância alguma e deixara, lentamente, de participar da vida dos seus queridos. Em parte era o seu antigo emprego, um local de escravidão disfarçado de paraíso. Mas… ele perdera as contas desde a última vez em que vieram lhe manter companhia e afastar os sentimentos ruins para longe.

A exaustão da doença parecia tê-lo deixado mais deprimido; sequer tinha forças para chorar e só desejava dormir, exatamente como ficava nos fins de semana após trabalhar exaustivas horas extras. Quem sabe, por algum milagre, talvez esta noite o universo sinta pena de sua pobre alma sofrida e conceda o seu sono eterno.

Ao se levantar cambaleando e ir para a cozinha vestindo apenas sua calça de moletom (que era demasiadamente confortável), Gael ouviu sua campainha tocar. Ele não se recordava de pedir alguma coisa, então, assumiu que fosse o síndico vindo cobrar o aluguel do mês. Com os cabelos ainda despenteados e o hálito fresco de menta, ele esfregou o rosto recém-molhado mais uma vez antes de abrir a porta.

Seus olhos não o pregaram peça alguma. A turbulência em seu peito aquietou. A mente, depois de dias e noites de loucura, calou-se. Afrente de si, estavam velhas silhuetas do colégio em que estudara. Havia um bolo nas mãos de um deles, cheio de mensagens de recuperação e encorajamento. Todos explicavam, empolgados e desajeitados, como conseguiram arrumar um tempo para visitar assim que souberam do resfriado e estado mental do jovem.

Gael não se importava com os meios. Eles estavam ali, não estavam? Não importava quaisquer que sejam os motivos. As intenções dos seus amigos eram claras como cristal e faziam seus olhos marejarem, mas por um bom motivo. A solidão não fez de Gael uma de suas vítimas hoje. Ele sabe, mais do que qualquer pessoa nesse exato momento, de que há alguém para lhe segurar quando cair. Acalentava-se nesse fato nos braços de sua amiga enquanto as lágrimas teimavam seu orgulho e insistiam em cair.


Imagem: Ilustrativa
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