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É, passageiro: Você vai ficar bem

Em uma tarde como qualquer outra, caí no sono. Meus sonhos têm se tornado cada vez mais profundos; consigo separar meu espírito da carne, viajar para longe e observar o mundo, livre e leve como uma pena. Esse foi um dos casos que eu desejava não ter essa habilidade. Flutuando em um estado mental límpido, quase hipnótico, resolvi observar alguém em seu quarto; algo me chamava atenção naquela garota. Ela se olhava no espelho, sua figura desnutrida e fraca não se parecia nada com o seu reflexo: uma mulher obesa a encarava de volta, proferindo insultos a si que chateariam até mesmo um narcisista nato.

Seus olhos estavam marejados e ela suspirou; sentia que era inútil, horrível, e que ninguém jamais a aceitaria como era. Pôs-se a chorar. Sua silhueta não passava de ossos com uma fina camada de pele, ao ponto de que um mero tombo quebraria seu fêmur e o mínimo dos esforços rasgariam sua pele. Com um pesar no peito e me sentindo completamente imprestável em não conseguir ajudar uma estranha, resolvi me afastar e procurar outra pessoa. Aquela situação já era deprimente por si só; uma doença que envenena a alma aos poucos, oferece dose diária de mentiras e profanação e até mesmo desrespeito a si mesma, tudo originada de sua mente frágil e corroída pelo mundo.


Mas que erro; na próxima casa onde entrei, uma mulher velha e aparentemente rica estava com o rosto todo enfaixado, seu corpo tão moldado que me lembrava uma ampulheta. Eu podia ver; suas costelas esmagavam seus órgãos e a cara estava inchada, roxa, toda lacerada e lutando contra possíveis infecções. Era um clássico; a cirurgia plástica. Esta também se olhava no espelho, a imagem refletida era a de uma deusa grega. Sua percepção de beleza distorceu completamente sua própria carne, ela era escrava de doutores e de eterna insatisfação. Mas, lá estava; possuía um sorriso tão largo quanto o de uma criança embaixo da árvore de Natal, prestes a abrir todos os seus presentes. Meu peito doía. A sociedade se corrompeu tanto ao ponto de nos tornarmos nossas próprias prisões?


A fim de ver um cenário melhor, mudei de lugar. Me encontrava em um quarto escuro, aparentemente em outra cidade. Um pouco de movimentação e ajustes à escuridão depois, eu finalmente via, afrente a um outro espelho (outro?) um rapaz em torno dos seus 20 anos, com a testa grudada no vidro. Em seu reflexo, havia um monstro pútrido, emanando nojo e reflexo faríngeo a quem quer que o olhasse. Não era possível…


Resolvi parar, flutuar sobre as nuvens e contemplar as construções abaixo; exatamente três pessoas, ao mesmo tempo, sofrendo com o que definem ser “beleza” e de não serem aceitos pelos seus semelhantes. Há tanta preciosidade em suas vidas, em seus corpos joviais ou idosos, ou até mesmo em suas almas onde a consciência mora. Infelizmente… o estado da mente reflete no corpo: dilacerados, moldados e escravizados pela própria ganância e ingenuidade.

Beleza é relativa, sempre é e sempre será. Eles não sabem que, antigamente, mulheres gordas eram sinônimo de fartura e consideradas lindas. Mulheres de beleza natural ou não, continuam lindas sem a necessidade de se transformar em plástico e virar uma escrava. Sendo homem, você não precisa procurar por aceitação de qualquer outro além de si. Todos são belos e únicos, como rosas em um canteiro; por mais parecidas que sejam, nunca serão iguais. Um dia, a beleza terá de acabar e, como no ciclo da vida, tudo terminará. Não tente forçar seu corpo até o limite de sua capacidade; você é autossuficiente e não há outros quem digam o contrário. Brilhe, floresça, nasça e renasça abraçando suas mudanças; você ficará bem, sabendo que cada vida, cada alma, são preciosas o suficiente para não serem vítimas de castigo e escravidão infligidos por si próprio.


E então, eu acordei deitado em minha cama, com a estranha sensação de calmaria depois da tempestade.

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